

ARTE ENGAJADA
11 de setembro de 2019
Por Estela Loth
Quando o artista é um sujeito ativo e com intenções de transformação social por meio da sua forma de expressão, seja ela qual for, ele produz arte engajada. Música, fotografia, poesia, cinema, teatro, ilustração, entre outras formas de se expressar. Mesmo tratando de temas de cunho social, de situações de injustiça e indignação, a qualidade estética não é deixada de lado. A beleza e a força andam juntas levando adiante assuntos como desigualdade, injustiça, machismo, racismo, homofobia, corrupção, e outros.
Isso é arte engajada!
O historiador Marcos Napolitano, em seu artigo acadêmico "A relação entre arte e política: uma introdução teórico-metodológica", define arte engajada como "arte ligada e a serviço de uma ordem política vigente e de um poder constituído; ou como arte engajada que critica esse mesmo poder e uma dada ordem vigente, relacionando mais a processos de lutas de caráter contestatório." Logo, como aponta Maria de Fátima Morethy, em seu artigo "Arte engajada e transformação social: Hélio Oiticica e a exposição Nova Objetividade Brasileira", a arte pode se tornar um "instrumento de conscientização nacional em todos os sentidos."
O que é?
Por que não conceber a política a partir de análises estéticas? O período da ditadura militar no Brasil tem provas incontestáveis de que essa aliança é legítima. Em diferentes linguagens, as manifestações de libertação das amarras ideológicas marcam a produção artística cultural brasileira entre os anos de 1964 e 1985.
Marcelo Ridenti, em seu artigo "Artistas e Intelectuais no Brasil pós 1960", publicado na Revista Tempo Social da USP, explica que naquela época "propunha-se uma arte nacional-popular que colaborasse com a desalienação das consciências. Recusava-se a ordem social instituída por latifundiários, imperialistas e – no limite, em alguns casos – pelo capitalismo".
Arte engajada no Brasil
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1964: Ditadura Militar - No dia 1º de Abril de 1964, ocorre o golpe militar, que culmina na deposição do então presidente, João Goulart. A partir dessa data, os militares passaram a governar o país: era o início de um regime autoritário que se utilizava da repressão e da tortura para a manutenção de uma suposta ordem.
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1964: Show Opinião - foi um espetáculo musical, dirigido por Augusto Boal, produzido pelo Teatro de Arena e por integrantes do Centro Popular de Cultura da UNE. Os atores-cantores intercalavam canções a narrações referentes à problemática social do país. O texto era de Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes.
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1965: O Desafio - é um filme de 1965 que marcou o cinema novo, dirigido por Paulo César Saraceni, com roteiro de Nelson Xavier e produção de Sérgio Saraceni. Por ser uma história de romance entre a mulher de um rico industrial, Ada e Marcelo (Vianinha), um estudante de esquerda, foi entendido como apologia do amor entre as classes. Por isso, passou pela censura do regime militar.
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1966: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come - É uma peça em que estão cifrados conteúdos políticos relativos às estruturas de poder no Brasil. A ação nos conduz ao Nordeste dos coronéis, líderes que batem de frente, uns contra os outros, por ocasião das eleições estaduais. A peça recebeu os prêmios Molière, Saci e Governador do Estado de São Paulo, como melhor peça e melhores autores do ano.
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1967: Terra em Transe - É um filme de Glauber Rocha cuja trama é uma alegoria política. Um texto que faz uso de elementos históricos muito próprios do Brasil e da América Latina como um todo, especialmente porque não se nega a mostrar as diferenças sócio-políticas, a larga oferta de posturas ideológicas, o embate quase infantil entre povo e poder, o uso da força militar ou do assassinato político para calar vozes dissonantes.
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1968: Ato Institucional 5 (AI-5) - O Ato Institucional Número Cinco (AI-5) foi o quinto de 17 grandes decretos emitidos pela ditadura militar nos anos que se seguiram ao golpe de estado de 1964 no Brasil.
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1968: Pra não dizer que não falei das flores - A música "Pra não dizer que não falei das flores" foi escrita e cantada por Geraldo Vandré em 1968, conquistando o segundo lugar no Festival Internacional da Canção desse ano. O tema, também conhecido como "Caminhando", se tornou um dos maiores hinos da resistência ao sistema ditatorial militar que vigorava na época.
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1970: Apesar de Você - É uma canção escrita e originalmente interpretada pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque em 1970 lançada, inicialmente, como compacto simples naquele mesmo ano. A canção, por lidar implicitamente com a falta de liberdades durante a ditadura militar, foi proibida de ser executada pelas rádios brasileiras pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici.
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1972: Comportamento Geral - “Comportamento Geral” foi um dos primeiros compactos lançados por Gonzaguinha, em 1972. O single passou aquele ano encalhado nas lojas de discos do Brasil e a situação só mudou em 1973, quando o músico carioca foi convidado a se apresentar no programa de Flávio Cavalcanti, em um quadro em que os jurados quebravam o compacto do artista se não gostassem da música. Consideraram uma audácia Gonzaguinha cantar uma crítica tão pesada a ditadura no auge do AI-5 de Médici, sentiram medo e o acusaram de terrorista, sugerindo o exílio. O tiro saiu pela culatra e, na semana seguinte, o compacto vendeu 20 mil cópias.
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1973: Eu quero é botar meu bloco na rua - É uma canção com uma letra cheia de metáforas. a música entrou para a história como uma das maiores canções brasileiras de todos os tempos. Na época, o exército levava tropas para as ruas, como meio de demonstrar a força para os cidadãos. Sérgio também queria colocar a sua tropa (bloco), com uma grande diferença de objetivos.
Timeline | Em plena ditadura...
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1976: Como o diabo gosta - Canção de Belchior, lançada em 1976, faz parte do álbum “Alucinação”. “Como o diabo gosta” é talvez o melhor exemplo da necessidade de dizer não, desobedecer, contestar; ações que ganharam uma importância ainda maior no momento histórico da Ditadura Militar.
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1978: Cálice (Cale-se) - Foi composta para o show Phono 73, em São Paulo, em maio de 1973. O evento reuniria em duplas os maiores nomes de seu elenco, onde deveria ter sido cantada por Gil e Chico. No dia do show, quando os dois começaram a cantar "Cálice" tiveram os microfones desligados.
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1979: O bom burguês - "O Bom Burguês" é um filme brasileiro de 1983. É um drama policial e político dirigido por Oswaldo Caldeira, e com roteiro de Oswaldo Caldeira e Doc Comparato. Realizado ainda durante a ditadura militar, é um filme ficcional sobre a luta armada no Brasil, inspirado livremente em personagem real.
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1982: Pra frente Brasil - "Pra frente, Brasil" é um filme brasileiro de 1982, dos gêneros drama e ficção histórica, dirigido e escrito por Roberto Farias, baseado em argumento de Reginaldo Faria e Paulo Mendonça. Estrelado por Reginaldo Faria, Antônio Fagundes, Natália do Valle e Elizabeth Savalla, Pra frente, Brasil foi um dos primeiros filmes a retratar a repressão da ditadura militar brasileira de forma aberta.
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1984: Cabra marcado pra morrer - O filme é uma narrativa semidocumental da vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 1962. Em razão do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 1964. O trabalho foi retomado 17 anos depois, recolhendo-se depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras filmagens e também da viúva de João Pedro, Elizabeth Altino Teixeira, que desde dezembro de 1964 vivera na clandestinidade, separada dos filhos
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1985: Fim do Regime Militar

Nas plataformas de streaming existem diversas playlists que reúnem artistas que produzem arte engajada!
Música | Streaming
Qual faz arte engajada?
Quiz
Nos últimos anos, uma crise mundial, com reflexos no Brasil, vem polarizando a população e tornando a dimensão da política cada vez mais discutida. Pode ser, agora, uma ascensão de novas inquietações. A conjuntura atual coloca em xeque, a cada minuto, qualquer análise que possa ser feita. Como dizia Chico Buarque, “O que será que todos os avisos não vão evitar?”. O fato é que a arte engajada parece, cada vez mais, estar retomando os espaços, inclusive os mais comerciais e mainstream. O historiador e teatrólogo Hussan Fadel explica:
Entrevista | A Conjuntura e a arte
Hussan ainda estabelece relações entre o período da ditadura e o contexto atual:
Logo, a arte engajada no Brasil não ficou parada no período da ditadura. De lá pra cá, muitos artistas de diferentes expressões se manifestam politicamente por meio da arte.
Nos dias de hoje, o Brasil vive uma conjuntura de disputa política e ideológica que vem dividindo a população e inflamando os debates. Sobe o desemprego, as condições de vida pioram, as políticas de educação, saúde e segurança estão em processo de sucateamento e a repressão aumenta. É um momento em que surgem muitas inquietações e uma das formas genuinamente humana de se livrar das angústias é a arte.
Outras questões que tomam as produções artísticas atuais são as opressões de raça e gênero que podem ser percebidas em diversos trabalhos.
Não é à toa que recentemente o incentivo público ao cinema nacional sofreu ataques.
Atualmente...
Muitas questões em um só clip:
Quantos eventos políticos da atualidade você identificou na letra e no clip? Este é um grande exemplo de crítica política e social atrelado a arte.
Exemplo!
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