

Entrevista

Laís Cerqueira
"A plataforma do podcast também cultiva um hábito que eu acho muito necessário, muito bonito até, que é o da escuta."
*Laís conversou com a gente sobre podcasts e storytelling. A entrevista foi base para o podcast “O meio é a Mensagem".
Amet Culturae: Quando vc fez sua pesquisa, que se baseou no Projeto Humanos, o que você pôde constatar sobre o conteúdo narrativo?
Laís Cerqueira: Meu interesse pelo meu objeto de pesquisa começou quando notei que ouvia cada vez mais podcasts, e que vários amigos estavam apegando-se aos programas também. Quis entender o que no podcast estava conseguindo fisgar nossa atenção assim, principalmente em uma era de informações praticamente instantâneas. Eram pessoas que só liam os títulos das matérias e que, ao mesmo tempo, também dedicavam horas dos seus dias e semanas para acompanhar podcasts com mais de 90, 120 minutos, com narrativas aprofundadas por temas até muito específicos.
Como trabalho com comunicação, queria (e quero) aprender sempre como engajar nosso público, e me interessa perceber como nós, seres humanos, adaptamos e criamos novas plataformas para contar histórias e cativar nossa audiência. Então, em resumo, minha pesquisa teve como objetivo estudar como a plataforma do podcast reproduz e ressignifica estratégias narrativas capazes de resgatar a paixão por contar histórias com profundidade por meio do áudio. O que eu constatei sobre o conteúdo, também resumidamente, é que o narrador da primeira temporada do Projeto Humanos faz uso de técnicas narrativas para engajar e comover a audiência, e esforçar-se para que o ouvinte escute um pouco de si mesmo naquela história. Pra não ficar repetitivo, vou falar mais sobre as técnicas que encontrei na pergunta sobre como usá-las.
AC: O que são as técnicas narrativas usadas em podcasts?
LC: Teoricamente, não posso falar com propriedade sobre as técnicas de todos os podcasts, já que minha pesquisa foca apenas em programas que fazem uso do storytelling, ou seja, de técnicas narrativas para tornar a história a mais cativante possível. A parte boa é que, como falo especificamente sobre o cenário brasileiro de podcasts na minha pesquisa, já que ele é o nicho no qual nasceu o meu objetivo de estudo, posso apontar algumas características mais gerais dos programas tupiniquins.
Antes, como é uma plataforma de nicho, é bom ressaltar que existem podcasts pra tudo – sério, chega a ser assustador –, então é impossível falar de todos os gêneros narrativos feitos no Brasil. O que é possível é observar que existem duas vertentes recorrentes na maior parte dos programas, sendo a mais famosa delas a apelidada de “mesa de bar”. Embora a linguagem mais informal seja comum em todos os tipos de podcasts brasileiros, nessa vertente ela é uma das características mais fortes – até quando o tema de um episódio é algo teoricamente formal, seja um acontecimento histórico ou uma teoria científica, o linguajar dos apresentadores não é formalizado e o tom da conversa constrói uma atmosfera que simula a inserção do ouvinte como participante da conversa entre os apresentadores. Não raro, os próprios apresentadores são amigos e comunicam-se se um modo tão efusivo e familiar que dá essa sensação de que estamos em uma discussão de mesa de bar. É o caso do podcast mais ouvido do país, o Nerdcast, que, pelo seu alcance, influenciou toda uma geração não só de ouvintes, mas também de produtores de podcast.
A outra vertente forte no Brasil é justamente a do storytelling, que já era desenvolvida (e reconhecida) há mais de uma década. Um exemplo é o Escriba Café, que ganhou duas vezes, em 2008 e 2009, a categoria de “Melhor podcast do Brasil” do Prêmio iBest, considerado o “Oscar da internet” na época. O Escriba apostava em storytelling, na imersão auditiva do ouvinte, e tinha uma estética sonora que, naqueles tempos, era considerado “experimental” para o podcast, embora já tivesse sido visto na rádio.
E, como é um herdeiro do próprio rádio e até mesmo considerado por teóricos como uma expansão desse meio, o podcast tem técnicas narrativas que são comuns às radiofônicas. Por ser um nativo da internet, o podcast também revigora essas técnicas e apresenta novas potencialidades características ao ambiente virtual. Duas dessas técnicas de construção narrativa são comuns às maiores vertentes do cenário brasileiro: a forte interação com quem ouve o programa e o incentivo à inserção dos episódios na rotina do ouvinte. Ambas são recorrentes porque, no caso do podcast, é como se o ouvinte fosse o ser onipotente, e não quem produziu o conteúdo. Aquele que ouve é quem é dono do tempo do programa, e decide quando, onde e de que forma o episódio será ouvido.
AC: O que é Storytelling e quais estratégias os podcasters usam para prender a atenção do ouvinte?
LC: Storytelling pode parecer um jeito metido a besta de falar “contar histórias”, mas é o termo (infelizmente, em inglês) usado para definir as técnicas de descrição de elementos e imagens de uma história, incentivando a imaginação do ouvinte e moldando a narrativa da forma mais envolvente possível. Quando falo sobre storytelling, então, estou me referindo ao conjunto de estratégias para contar histórias.
Para saber como o storytelling é e pode ser utilizado em podcasts, usei a metodologia do teórico Luiz Gonzaga Motta, chamada “análise crítica da narrativa”. Foquei especialmente nos elementos da análise empírica que o Motta propôs, que é baseada em experiências e observações, sejam elas metódicas ou não. Minha análise foi ancorada nos sete movimentos empíricos propostos pelo autor; cada um deles é focado em um dos aspectos da narrativa. Os movimentos analisam, respectivamente, a história, a articulação interna da narrativa, os episódios, os conflitos dramáticos, os personagens, as estratégias argumentativas e as narrativas.
Pra te responder, então, vou focar só no sexto movimento, sobre as estratégias narrativas, embora também possamos ficar um tempão falando sobre as técnicas referentes às outras partes da análise empírica. Para falar dele, precisamos antes falar sobre como as narrativas não são coisas fechadas ou autossuficientes, mas sim dispositivos de argumentação. Então, quando construímos narrativas, inclusive em podcasts, precisamos ter em mente que estamos em um processo de argumentação e convencimento do nosso ouvinte.
No caso da primeira temporada do Projeto Humanos, uma das maiores estratégias para fisgar esse ouvinte eram os efeitos de real e os efeitos de sentido. Como é uma narrativa baseada em uma história real, o narrador usou muito uma linguagem referencial para vincular a narrativa ao mundo físico, reforçando a noção de verossimilhança com um universo no qual estamos inseridos e somos capazes de reconhecer. Com a história ancorada na realidade, já é meio caminho andado para despertar o senso de pertencimento do ouvinte. São exemplos desses efeitos de real: citações frequentes de falas de outras pessoas referenciadas na realidade; identificação sistemática de lugares, situando a audiência e transmitindo a noção de uma precisão espacial; o uso de datas também precisas, o que implica um referencial temporal à narrativa; a utilização de estatísticas ou demais números concretos, conferindo ainda maior certeza ao relato. Esses efeitos não precisam ser utilizados apenas em podcasts de storytelling – programas com notícias jornalísticas ou temas relevantes para a sociedade também cabem aqui.
Mas, além de números e realidades, as técnicas elaborados por meio de efeitos de sentido também são importantes: são elas que humanizam os personagens da história (inclusive o narrador) e despertam empatia, comoção ou admiração no ouvinte (outros sentimentos também podem entrar nessa brincadeira, dependendo do que o narrador quer contar). Falar sobre esses efeitos é um pouco mais subjetivo; podemos evocar emoção até mesmo com o uso do silêncio em podcasts. Fica a critério de quem narra.
Para começar a utilizar essas técnicas, nós precisamos entender qual é o episódio narrativo em torno do qual gira a nossa história. Pode ser, inclusive, mais de um. São estes episódios que provocam a expectativa necessária para manter o interesse na narrativa; seja a expectativa sobre sobrevivência de algum personagem, uma reflexão necessária para a audiência, um conflito entre participantes da história, uma reviravolta inesperada, uma informação importante a ser disseminada, etc. Quando sabemos o porquê de querermos contar aquela história, começaremos a ver as melhores formas de tecer nosso fio narrativo, pois ele terá um propósito. Ou mais de um.
AC: A que você atribui essa expansão dos conteúdos narrativos distribuídos na forma de podcasts aqui no Brasil?
LC: Acho que sempre há essa demanda por um conteúdo humanizado, e aquele que é feito por meio do áudio tem uma carga quase nostálgica, que atrai naturalmente. Tem uma citação do Gardner Campbell, professor da Universidade de Virgínia: “Há magia na voz humana, a magia da consciência compartilhada. A consciência é comunicada de forma mais persuasiva e íntima através da voz. A voz é linguagem literalmente inspirada, linguagem cheia de respiração, respiração como linguagem. Considere a frase ‘pensando em voz alta’... As fotografias são inegavelmente poderosas, e talvez uma imagem valha mais do que mil palavras, mas algumas palavras proferidas por uma voz querida podem valer o maior valor de todos.”
Há anos, o podcast constrói um panteão de vozes que, com muita criatividade e insistência, tornam-se vozes queridas. É uma tradição que vem do rádio e expande ainda mais com a internet, faz alcançar lugares que as ondas sonoras das emissoras não conseguiam antes. E a plataforma do podcast também cultiva um hábito que eu acho muito necessário, muito bonito até, que é o da escuta. Aí tem outra citação, agora da Conceição Evaristo, quando ela fala sobre a Bondade. “Fatos estavam acontecendo, muitas coisas ela percebia, mas só conseguia um melhor entendimento por meio das narrações que ouvia. Ela precisava ouvir o outro para entender.” Chuto que somos todos assim: entendemos o mundo por meio das histórias que ouvimos, que precisamos escutar o outro para entendê-lo – e, com isso, entender a nós mesmos também.
É difícil fazer um diagnóstico preciso de porque o podcast está em expansão no Brasil, mas esses são meus melhores chutes. Ainda tem muito estudo pela frente sobre essa plataforma. Como ele ainda está em desenvolvimento e pode se expandir ainda mais, jajá temos novos desafios técnicos e subjetivos para a conservação e divulgação da arte de contar histórias. Uma das poucas coisas que eu posso afirmar com certeza é que, mesmo que ainda esteja em andamento, isso não quer dizer que a plataforma não pode ressignificar técnicas já conhecidas, como as vistas pela história oral ou pelas narrativas radiofônicas, e reverberá-las com um novo alcance e engajamento para determinados tipos de público. E o podcast está fazendo isso. Ainda bem.