

Entrevista

Nathan Itaborahy
"Eu senti que eu saí com uma rede fortalecida, que as pessoas não só apoiam meu trabalho, mas estão junto, compartilham desse desejo de pôr o CD no mundo."
*Nathan conversou com a gente sobre a vida de músico autoral e sobre o financiamento coletivo que foi feito para conseguir produzir seu disco solo. A entrevista foi base para a reportagem “Delírios e sonhos do músico autoral e a realidade”.
AC: Como é ser músico em Juiz de Fora?
N: Eu acho que é uma situação bem contraditória, digamos. Eu sinto que é uma cidade que tem estrutura de equipamentos artísticos de espaço e de público, de certa forma, limitado, perto do tamanho da cidade. A gente sofre um pouco com espaço mesmo. Ao mesmo tempo, existe uma precarização do trabalho na noite do músico. Ainda assim, eu acho que é uma cidade que tem uma cena muito rica, que tem uma tradição com o som, que tem um movimento artístico muito rico como um todo. Eu acho que nesse sentido, além das coisas da cultura de cada lugar, das coisas únicas que cada lugar tem, que Juiz de Fora tem isso de interessante, eu acho que o próprio tamanho dela inviabiliza esse tipo de troca. Eu sinto que a gente tem poucos grupos, grupos que se separam, tipo guetos, sabe? Eu sinto que existe uma comunicação legal entre os gêneros, entre as pessoas. As pessoas transitam. E eu acho que um grande exemplo disso é o Encontro de Compositores que é um evento totalmente diverso. Tem todo tipo de compositor/compositora ali convivendo com aproaches completamente diferentes na música, na composição e que estão ali partilhando, e disso nascem projetos. Então eu acho que é uma cidade porosa. As pessoas transitam muito entre as propostas e por isso tem uma riqueza de composição e de projetos. Ao mesmo, tem uma certa dificuldade de dar vazão a isso e fazer com que esses trabalhos toquem na noite, e, consequentemente, fazer com que o músico viva bem de música. Principalmente aqueles que vivem da noite.
Acontece que, ou o músico, ou sai de Juiz de Fora pra trabalhar só com música, ou ele fica, mas trabalha com outra coisa.Em alguns casos, a pessoa abre frentes, dá uma oficina e abre uma escola de música, ou estúdio, eu por exemplo tenho trabalhado com produção musical, que é uma outra frente, é um trabalho mais diurno e que tem outras perspectivas, outro mercado, digamos. E ao mesmo tempo tem uma galera que tem ficado e levantado a bandeira e tem que inventar seu jeito, pra que não fique só refém da noite.
AC: Quais as principais dificuldades, como artista, você já passou com relação ao seu trabalho autoral?
N: Existem dificuldades com trabalho autoral por que, de certa forma você tem que defender algo que não existe. Principalmente pensando em público. Então é como se você tivesse começando do zero. Comparando por exemplo quando eu toco em alguns tributos, você conta totalmente com a trajetória e o background, aceitação e familiaridade do artista que você ta ali representando, e no autoral você tá totalmente órfão disso. Então é um tipo de trabalho que você tem que fazer um a um. No chão mesmo, no tete-a-tete. Acho que esse é o maior desafio. Mas junto com isso, aquilo que eu falei na pergunta anterior: a falta de espaço e de público. É meio óbvio falar isso, mas o público do autoral é um público pequeno mesmo, é familiar, quase sempre com amigos ou pessoas que trabalham com música. A gente tem muita dificuldade pra fazer o nosso trabalho autoral sair da bolha. Ao mesmo tempo, a gente não quer seguir o caminho das gravadoras ou das grandes carreiras, grandes artistas. Então o trabalho autoral tá nesse limbo, porque a gente também quer acreditar em alguma coisa, que dá pra ter uma carreira, uma trajetória, uma história na música ou então uma obra. E aí gente vai tocando. O trabalho autoral é um pouco essa resistência, de saber que o show vai ficar vazio, “vou ter que levar grana”, ou, “vai ser no perrengue”, vou ter que levar o som, vou ter que fazer toda a divulgação, mas eu vou.
Não é fácil lançar um trabalho autoral, principalmente no sentido do lançamento mesmo, de fazer isso chegar pras pessoas e chegar num jeito legal e repercutir de alguma maneira. Esse é um dos grandes desafios, mais ainda vender, que é um desafio dos grandes. Mas ao mesmo tempo, do ponto de vista do processo de gravação de um CD ou um EP, hoje é muito mais fácil do que era antes, indiscutivelmente, porque hoje os meios são democratizados. A gente consegue com sistemas muito mais simples, gravar no nosso computador mesmo coisas com qualidades muito legais e isso tá fazendo com que a gente nessa geração seja uma geração bem diversa. A gente tem vários artistas com pequenos públicos e diversa também no sentido geográfico da coisa, de estar ouvindo mais vozes, da periferia ou do norte, sei lá, mais mulheres… Esse processo de democratização inclui isso. E ainda tem as plataformas de streaming que fazem com que hoje seja muito mais fácil colocar o trabalho no mundo, porque muitas das vezes você não precisa nem prensar o CD, os discos hoje são ouvidos quase que unicamente nas plataformas digitais. Então isso é uma característica da nossa geração, conseguir lançar trabalhos nas plataformas e pular este degrau que as gravadoras tinham na mão, que é a coisa da distribuição dos discos físicos. Claro que tem muito mais artistas, isso dificulta a chegada. Num lugar que tem muita coisa, você se fazer ser buscado é mais difícil, em compensação, é muito mais fácil jogar pro mundo. Além do que virtualmente é muito mais fácil você chegar nos cantões, outros países, enfim, tem uma perspectiva muito maior.
Então não é fácil lançar um trabalho autoral, principalmente lançar, mas produzir tá cada vez mais fácil.
AC: Sabendo que você, como parte do Tropeço Trio, já conseguiu lançar trabalho autoral com ajuda de lei de incentivo. É fácil lançar um trabalho autoral? Qual a diferença entre lançar com apoio de leis de incentivo e sem esse apoio?
N: A diferença principal de lançar com apoio de alguma lei de incentivo é que vc tem uma estrutura um pouquinho melhor pra trabalhar. Tem uma graninha para pagar o cachê dos músicos, pagar uma masterização/mixagem legais, um estúdio, arte. Mesmo sabendo que boa parte das leis, no nosso caso, por exemplo, a Lei Murilo Mendes, talvez o valor máximo esteja abaixo do valor de mercado, pensando São Paulo e Rio. Mas ainda assim, pensando na nossa realidade que sempre estamos trabalhando com camaradagem e parcerias é um contexto muito bom de trabalho. Então esse é o primeiro ponto da diferença. Agora, sem apoio, eu acho que o interessante é que vc tem que construir necessariamente uma rede forte para conseguir lançar seu trabalho. Aí tem o caso do financiamento coletivo. Então, é claro, é muito mais difícil, mas vc tem um trabalho mais concreto. No caso do financiamento coletivo você consegue saber quem te apoiou e vc consegue ter o contato e manter contato com esse público. E isso é muito interessante pq tem muito trabalho em leis de incentivo também, e essa é um das primeiras críticas, digamos, à essas leis, onde as obras meio que nascem mortas, ou peças de teatro que ficam vazias, ou livros que ficam agarrados, cds que não viram turnês. Porque vc já tendo a grana, vc não tem que ralar pra manter essa rede de apoiadores que você levantaria fazendo pela lei.
É um debate, mas ao mesmo tempo, pensando do ponto de vista como músico, é muito bom ter uma graninha, ainda mais quando as coisas vão se profissionalizando, a gente vai querendo trabalhar com algum tipo de estrutura melhor, pra fazer um trabalho mais bacana.
Outra diferença entre as leis de incentivo e o financiamento coletivo é que no financiamento, o dinheiro cai na sua conta logo depois que você captou ele. Já nas leis de incentivo, ou você tem que fazer um processo de captação junto às empresas, que aí é um outro questionamento sobre a lei, ou você precisa esperar o orçamento do ano seguinte da prefeitura e isso sai em etapas. Enfim, pensando o tempo da arte, as vezes isso esfria um pouco as coisas.
AC: De onde veio a ideia de fazer a vaquinha online para lançar um disco?
N: A ideia de fazer um financiamento coletivo veio de uma amiga minha, a Lara Daibert. Na verdade eu já tinha um pouco essa ideia, porque essa ideia tá aí no mundo. Os artistas da minha geração têm feito isso, inclusive artistas grandes, que é uma espécie de pré-venda, uma co-produção, digamos assim. E é uma troca justa, então as pessoas saem felizes dos dois lados com a coisa. E aí, mais de um ano atrás a gente começou uns papos e a a gente foi empurrando em função da correria, dos outros trabalhos todos na música. E só agora, nesse ano, que eu consegui juntar as forças e falar: “a hora é essa!”. E eu consegui fazer o financiamento. E aí a Lara e a Clara Castro me apoiaram nisso aí. Me ajudaram a fazer os vídeos a construir uma campanha e deu tudo certo!
AC: Como foi o processo do financiamento coletivo?
N: A campanha durou 45 dias. A gente fez um processo de divulgação, principalmente nas redes sociais, mais forte no Instagram, mas no Facebook também. E ali antes de começar eu joguei umas iscas perguntando quem pode me ajudar, quem participaria nesse tipo de projeto, e ali já foi aparecendo uma turma que eu fui ali fazendo a minha listinha particular. Junto com isso eu fui fazendo um processo de divulgação e fiz uma lista de amigos. No total foram 126 apoiadores pra bancar. E além disso, antes, na hora de fazer orçamentos eu já fui despertando esse espírito do financiamento coletivo e consegui uns orçamentos mais baratos, de amigos também pra poder viabilizar um custo mais baixo. O orçamento do CD, na primeira meta era 13 mil e alguma coisa. É um valor bem baixo pra um CD, mas eu consegui fazer uma permuta pro estúdio, consegui uns descontos de amigos mesmo e isso já estava no espírito de ser coletivo de ser participativo e tal. Então foram 45 dias, 126 pessoas e no total, 115%. Eu consegui ultrapassar a primeira meta quase 15% e no total deu quase 15 mil reais.
Essa lista de pessoas próximas, eu acabei entrando em contato com a maioria dessas pessoas pelo WhatsApp também, mandando áudios, conversando e aproximando a relação. Eu acho que isso foi muito importante, porque eu saí fortalecido no sentido dessa rede que eu tinha falado antes. Eu senti que eu saí com uma rede fortalecida, que as pessoas não só apoiam meu trabalho, mas estão junto, compartilham desse desejo de pôr o CD no mundo. E as mensagens de Whatsapp foram muito interessantes porque pelo áudio dá pra ser um pouco mais caloroso e eu tive respostas muito legais que deram muita força pra caminhada.
AC: Como vai ser a organização para lançar um trabalho de forma totalmente independente?
N: Estamos num momento de pré-produção. A gente entra no estúdio no próximo sábado para gravar a primeira música e ficamos duas semanas gravando direto. Então essa é a primeira parte do processo. Levantar tudo, repertório, quem vai participar e ir às vias de fato na gravação. Depois disso vem a edição, que é botar uma coisinha ou outra no lugar. Tirar coisa dali, colocar acolá. E aí vem a mixagem, que é misturar esses sons, timbrar cada coisa, gerar os contrastes, equalizar cada coisa, fazer o som soar bem junto. E a masterização que é a finalização do áudio, que é deixar o áudio que vai tocar em qualquer lugar chegar com pressão e fazer soar bem graves e agudos. Essa é a etapa de produção do CD. Além disso eu já estou, conversando sobre a arte com a Júlia Fregadoli, que é uma artista amiga minha, que vai fazer a capa e essa movimentação já tá acontecendo. E aí depois a gente vai ter uma cobertura audiovisual de um amigo de Barbacena, que vai gerar os teasers e vai gerar um clipe também. Então a gente vai ter essa divulgação pelo clip. Provavelmente eu vou lançar um ou dois singles antes do CD e vou fazer o lançamento em Barbacena e Juiz de Fora, que são as cidades que eu to com um pé lá e um cá. Inclusive por causa da bituca que é a escola de música que eu tenho estudado aqui em Barbacena. Além disso, um trabalho que eu ainda não tenho grana, mas que com certeza eu vou ter que me virar pra isso é o trabalho de assessoria de imprensa, para poder fazer o CD chegar na mão de jornalistas e críticos musicais, que é um movimento importante porque esse tipo de repercussão viabiliza uma aceitação do seu trabalho em editais, festivais, essa coisa toda. E por último, tocar. Dar as caras, ir no que pintar, estar disponível para entrevistas pra gravações. Enfim, fazer o trabalho chegar no mundo mesmo, né?! Claro que isso tudo com uma dosesinha de destino, sorte, de como as coisas vão acontecendo, as pessoas que vc vai encontrando, né?!
No sentindo do independente, vale dizer que a Lara Daibert vai ser a produtora executiva do CD, que é uma amiga, o Douglas Poerner, que é baixista e amigo meu, vai ser co-produtor, a minha namorada Clara, vai ajudar na produção executiva também, na divulgação. Então tem esse fator mão de obra amiga. Que também tá no espírito do coletivo, do que o financiamento coletivo propõe. Então tem essa coisa de contar com os que estão perto. A Clara também vai me ajudar a fazer preparação vocal, vários amigos vão gravar, vão ceder seu cachêzinho, então tem essa coisa das muitas mãos.
AC: Qual vai ser a proposta do Sentado no Céu?
N: A proposta é fazer uma apanhado do meu cancioneiro, das músicas que eu tenho até aqui, que acho que merecem ser gravadas e ainda não foram. Principalmente pensando que minhas músicas foram gravadas no Tropeço Trio, que um projeto que eu faço parte, outras no projeto da Clara Castro, outras na banda Blend 87. Então elas estão meio dispersas. E no ‘Sentado no céu’ eu acho que vou conseguir ter um espaço mais intimista para poder falar com uma pegada um pouco mais confessional. E também fazer o som que eu penso. Buscar uma sonoridade que me represente com os timbres e palavras que eu gosto. Enfim, é um espaço mais meu mesmo. E essa é a primeira parte da proposta. Esteticamente, eu sinto que tem uma coisa muito forte do rock’n’roll, que é uma das minhas perninhas, esse espírito do rock, da sonzera e de quebrar tudo. Ao mesmo tempo, eu tenho uma perninha na canção, na coisa da canção brasileira, o cancioneiro brasileiro do século passado e desse século que é muito inspirador. Então tem essa perninha aí também. Além de ter uma coisa forte do groove, que vem junto, digamos, com isso da música brasileira, da dança e do corpo. Do ponto de vista poético, eu sinto que cheguei aos meus 30 e poucos anos, estou com 31, o CD do Tropeço chama O Assassinato da Carteira Assinada, digamos que eu vivi esse processo de largar a geografia para viver de música, mas agora eu sinto que estou em outro degrauzinho, depois do “assassinato”. Eu acho que O Assassinato da Carteira Assinada é cheio de romantismo. É essa coisa do viver de música, me libertar do patrão, e hoje eu já tenho uma visão mais realista da coisa, de que “se não ralar não vai rolar”, saber que é um mercado difícil pra caramba. Eu sou meio workaholic então, vira e mexe eu to com dor nas costas, cansado, enfim, muitas frentes de trabalho. Então eu acho que tem esse conteúdo assim, um pouco da descrença junto com a esperança, porque no fim das contas eu continuo fazendo música e vou continuar pro resto da vida. Mas tem essa dorzinha que vai batendo da “desromantização”, mas que é importante também. E junto com isso, os últimos tempo do país. O que a gente tem vivido como artista, como brasileiro, as coisas que a gente tá passando... Então isso gera uma certa descrença, sabe? Acho que eu tinha uma leitura de que a gente não voltaria pra esse ponto da história, mas a sociedade e a história estão me mostrando que a gente sempre pode retroceder. Então viver esse retrocesso e ver tipo amigos gays, quilombolas, indígenas,sendo desrespeitados, artistas... é uma descrença. Gera uma desesperança e é um tapa do lado escuro do ser humano, e isso de alguma maneira também está no CD poeticamente.
AC: Qual a previsão de lançamento?
N: A previsão de lançamento é novembro e dezembro deste ano. A ideia é gravar e já lançar, pôr no mundo de uma vez pra poder ralar pra outros lados também, poder trabalhar na divulgação dele no ano que vem e fechar o ano com isso resolvido.