

Entrevista

Hussan Fadel
"Tudo é atravessado pelo contexto histórico que a gente tá inserido."
*Hussan conversou com a gente sobre a arte engajada no Brasil e o período da ditadura militar. A entrevista foi base para a reportagem “Arte Engajada”, publicada no dia 11 de setembro de 2019.
Amet Culturae: Você percebe, como historiador, um movimento de alta, queda e ascensão da popularidade da arte engajada no Brasil desde a época da ditadura militar? A que você atribui esse movimento, primeiro de queda, após o fim da ditadura?
E, a que você atribui o movimento de ascensão da arte engajada hoje?
Hussan Fadel: Eu acho que a arte é constantemente atravessada pelo meio. Tanto no sentido da produção mesmo, os meio de produção, a forma de se enquadrar ou de achar um lugar dentro de uma cadeia econômica, essa relação de valor, valoração da arte... Tudo é atravessado pelo contexto histórico que a gente tá inserido. Então eu acho que na época da ditadura, havia essa necessidade de chamar à luta. E isso vai ficando latente em alguns contextos. E hoje como tem muita gente fazendo, normalmente, você não tem um fazer que é hegemonicamente entretenimento, então você tem vários tipos de fazer, vários discursos. A arte contemporânea de uma maneira geral ela é marcada pela diversidade, de formas, de discursos, e eu acho que quando umas questões sobressaltam, ganham algum tipo de coloração mais viva, essas questões atravessam o fazer das pessoas e aí alguns discursos invariavelmente são contaminados, são atravessados por essa necessidade de dar vazão a algumas questões. Além da possibilidade de falar pra mais pessoas, isso vai alcançando mais gente, e eu acho que isso tem a ver com mais pessoas que se identificam com determinados discursos ou a possibilidade de colocar o seu discurso de forma ativa, uma forma de leitura ativa de uma obra de arte.
AC: Sabe-se que o processo de criação e produção de arte engajada é um processo que não parou em determinados períodos de tempo. Entretanto a aceitação do público parece ter aumentado.
Enquanto artista, que vem produzindo arte sem se ausentar da política, você percebe, na sua experiência, esse movimento de aceitação?
H: Não sei se eu tenho percebido um aumento no consumo de determinado tipo de arte. Eu vejo mais pessoas se manifestando, mas não sei se exatamente isso tem atraído público. Não sei fazer análise desse contexto e dizer se algum tipo de identificação política gera uma ampliação do meu público. Na prática, não tenho percebido isso não. Acho que eu tenho visto as pessoas consumirem até menos arte. Talvez esteja todo mundo tão imobilizado por essa quantidade de informação ruim, coisas negativas acontecendo, a falta de perspectiva real, a realidade se mostrando nua e crua,e isso, de alguma forma, tem afetado as pessoas e elas não têm se mobilizado para buscar uma experiência. Não vejo um impacto de pessoas indo mais ao teatro por causa disso. Mas algumas se identificam mais com alguns discursos mais radicais, ou ainda que esses discursos não sejam tão radicais, identificam alguma radicalidade na coisa, né? Eu acho que é isso, o nosso fazer tá atravessado pela radicalidade da forma, um fazer coletivo, de forma sempre cooperativa, colaborativa, tentando sempre abrir espaço para que outros artistas possam ocupar a nossa sede, por exemplo, então isso tudo é presente pelo contexto, mas em termos de público efetivamente por um discurso engajado eu não percebo não.
AC: Você vê relação entre a arte engajada e o Capital? (Apropriação por parte indústria cultural de alguns movimentos artísticos politicamente engajados). Na sua opinião, essa relação é positiva?
H: Essa relação da arte com o capital eu acho meio louco, porque enquanto artista profissional, a gente quer viver do nosso trabalho. E aí, como que você vive uma vida digna se você não tem uma relação de valoração do seu trabalho e até de consumo? Ainda mais se a gente considera o contexto de agora. Antes a gente tinha mais editais e desde 2016 tem diminuído, editais e possibilidades de fazer um produto que não se enquadra como um produto dentro de um discurso hegemônico, dentro de um contexto de mercado. A arte contemporânea valoriza a diversidade, a diferença. E pra isso, tem valorizar o teatro para 400 pessoas e o teatro para 30. Tem várias formas de fazer. E tem que ter espaço para todos sobreviverem. Todos que se dedicam efetivamente. Não acho também que é um oba-oba, mas acho que, pra fazer arte profissionalmente envolve um engajamento uma dedicação, um olhar pro seu fazer que é distinto do amador. Não que ele deixe de fazer com muito amor, mas você tem que saber estratégias, tem que fazer bons projetos, e isso tudo acho que é cada vez menos valorizado. A gente acha cada vez menos espaço pra isso. Mas como que a gente faz o nosso teatro chegar pra mais pessoas, por exemplo? A gente precisa de estar o tempo inteiro reinventando o nosso fazer, obviamente pensando de uma maneira comercial, que é sempre difícil. É difícil a gente conseguir sustentar um trabalho de forma independente. Então, como conseguir grana pra poder fazer um trabalho? Você tem que fazer na raça. Então isso faz você ficar o tempo inteiro precisando de uma movimentação comercial. E eu acho que todo trabalho que ganha certa visibilidade, invariavelmente, passa a fazer parte de um mercado. Sempre que você pensar em um trabalho mais profissional de arte, ele envolve o mercado. Só que essa é a questão: como se posicionar diante do mercado? É se posicionar passivamente? Eu acredito que o meu teatro sirva enquanto ruptura. É um teatro que está dentro da realidade, mas ao mesmo tempo, a busca maior dele é de ser uma quebra com a realidade. Ele se alimenta da realidade para, de alguma maneira, desconstruir, apresentar outras realidades. Eu acho que saber jogar com a necessidade de grana e ao mesmo tempo não perder o seu viés ideológico é estratégico.