

DELÍRIOS E SONHOS
DO MÚSICO AUTORAL E A REALIDADE
21 DE AGOSTO DE 2019
POR ESTELA LOTH
Quando o assunto é trabalhar com arte, sempre vem a pergunta: como sobreviver? Ser artista no Brasil não é fácil. E na hora de “assassinar a carteira assinada” sempre surgem dúvidas. Como fazer o seu trabalho ganhar visibilidade? Como produzir com pouco dinheiro? Como ganhar dinheiro com o seu trabalho? E de questões em questões o artista vai resistindo. Ainda existem possibilidades. Editais, públicos ou não, novas formas de tentar um financiamento e plataformas digitais estão entre as questões que envolvem uma carreira artística.
A cidade de Juiz de Fora tem um cenário musical muito interessante. Músicos de diferentes gerações estão se reafirmando na cena e se fazendo presente. Ainda tem alguns espaços de cultura que se preocupam em ter atrações locais e com trabalho autoral. Mas isso é exceção. Apesar de muitos desafios que o nicho cultural impõe aos artistas da cidade, tem muita gente para ser conhecida.
Experiência
Músico há mais de 20 anos, Danniel Goulart conta com sua experiência e “mil bandas” para trabalhar com música. Ele tem um trabalho fixo. É jornalista de carteira assinada, mas não deixa a música de lado. Já lançou dois CDs com a apoio da Lei Murilo Mendes, que é uma lei de incentivo à cultura da prefeitura de Juiz de Fora. Danni, como também é conhecido, lançou três CDs com a Banda Eminência Parda, um com Parangolé Valvulado e ainda participa de outras bandas.

O músico conta que a oportunidade foi muito importante para sua carreira. “Quando coloquei meu projeto na primeira vez, eu era literalmente um João Ninguém em Juiz de Fora e projeto foi aprovado mesmo assim. Para mim foi muito importante e para muitos artistas também continua sendo de uma importância grande a ponto de ser a lei uma mantenedora da cultura da cidade em atividade nesses tempos doidos.” Entretanto, a lei exige que um projeto escrito e uma certa burocracia em torno de documentos para que o artista seja contemplado. Danniel fez o processo todo sozinho, embora, segundo ele não seja muito de seu gosto a parte burocrática.

O primeiro disco de Danniel, “Acordes”, foi lançado em 2001. É um disco com uma pegada new age e tem apenas melodias instrumentais. Somente em 2018 que Danni conseguiu lançar seu segundo disco. Como ele mesmo gosta de dizer, o “Nomeidomato” traz um som progressivo caipira. Esses dois trabalhos foram lançados com apoio da Lei Murilo Mendes, que tem o diferencial de se basear em critérios artísticos e menos comerciais, se comparada com a lei Rouanet. Para Danniel essa metodologia da Lei Murilo Mendes é “uma luz no meio da ditadura do mercado”.

Com tantos anos de música, Danniel já enfrentou diferentes dificuldades para realizar seu trabalho. Uma de suas críticas é à indústria do entretenimento que tem se ocupado de apenas alguns estilos musicais. “Acho que deveria haver mecanismos que ajudassem a democratizar o espaço. Apesar da internet, a grande mídia ainda é massificadora e trata a música exclusivamente como produto, o que normal dentro de um sistema capitalista, mas não deveria ser normal dentro de um sistema democrático.”
Hoje ainda é possível contar com as plataformas de streaming, onde Danniel ainda pretende disponibilizar seus discos. Para ele ouvir músicas sem precisar ter um reprodutor de disco físico e ouvir música em qualquer lugar, a qualquer momento é “o futuro, pelo menos até semana que vem.”
(Confira a íntegra da entrevista de Danniel clicando aqui.)
Tropeçando
Já adeptos das plataformas de streaming, a banda Tropeço Trio, com apenas três anos, já tem um EP (extended play) lançado pela Lei Murilo Mendes. Vindos de um outro grupo, a banda Blend 87, o trio de baixo, bateria e guitarra surgiu de conversas na cozinha entre receitas e composições. Os músicos Douglas Poerner (baixista), Nathan Itaborahy (baterista) e Renato da Lapa (guitarra) resolveram que iriam viver de música. Esse primeiro trabalho do grupo recebeu o nome de “O Assassinato da Carteira Assinada” e marca esse momento da vida dos rapazes.

Para fazer a inscrição do projeto autoral da banda na Lei Murilo Mendes, a experiência ajudou. O produtor conta que “o projeto em si foi uma coisa mais dos três músicos. O Nathan já tinha experiência de ter sido aprovado na Lei um ano antes, com “Devaneios Necessários”, que é o livro de poemas dele.” Desde a aprovação do projeto no edital de 2016 até a obra final, algumas coisas foram se ajeitando. “Quando a gente inscreveu o projeto, a proposta na lei, acredito que todas as músicas estavam prontas, escritas. Já existiam, mas ao longo da produção, algumas que inicialmente a gente achou que com certeza iriam entrar, ficaram de fora e outras acabaram entrando. Porque como era um EP, no caso foram gravadas seis canções e uma música instrumental. E o nosso repertório autoral, que a gente compõe junto e com outros parceiros, é bem maior. Então teve que rolar um filtro e acabou chegando nas sete que foram gravadas durante o processo”, conta Rogério.
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Sentar no céu
Logo após “assassinar a carteira assinada” junto com o Tropeço Trio, Nathan Itaborahy, pretende “sentar no céu.” Nathan é baterista, estuda música na Bituca e participa, além do Tropeço, de outros projetos. Inclusive já publicou um livro de poemas, também com recursos de lei de incentivo. Experiência para lidar com os editais ele tem, mas também sabe que não é a única saída.
O baterista resolveu se jogar em uma nova viagem e o destino é o céu. “Sentado no céu” será o nome do álbum que Nathan lançará em breve. O incentivo financeiro, no entanto, veio de uma forma completamente diferente: financiamento coletivo online. Esse tipo apoio é feito na internet em uma plataforma onde os apoiadores do projeto possam contribuir financeiramente. Ao alcançar uma determinada meta de arrecadação, o artista pode recolher o dinheiro e investir no seu trabalho autoral. Apesar de também ser um processo que demanda trabalho, é uma alternativa que vai para além da necessidade de aguardar a abertura de editais.

A campanha do financiamento coletivo durou 45 dias. Havia uma primeira meta de 13 mil reais que foi ultrapassada com a ajuda de 126 apoiadores. O arrecadado chegou a quase 15 mil reais. O valor ainda está abaixo do que uma produção de álbum tem custado atualmente, mas Nathan explica que “antes, na hora de fazer orçamentos eu já fui despertando esse espírito do financiamento coletivo e consegui uns orçamentos mais baratos, de amigos também para poder viabilizar um custo mais baixo. O orçamento do CD, na primeira meta era 13 mil e alguma coisa. É um valor bem baixo pra um CD, mas eu consegui fazer uma permuta pro estúdio, consegui uns descontos de amigos mesmo e isso já estava no espírito de ser coletivo, de ser participativo.”

As músicas do Tropeço têm referências que variam entre o mundo do rock e da tradição da música popular brasileira, mas eles preferem chamar o som de “rock rural de apartamento”. Além dos três músicos, a artista Lívia Almeida cuida de toda a parte gráfica do grupo e o produtor executivo, Rogério Arantes, cuida da parte burocrática e ainda compõe. Rogério conta que desde o início da banda até o lançamento do primeiro EP demorou cerca de dois anos. O grupo trabalhou coletivamente fazendo com que o trabalho fosse para além do musical, artisticamente completo, atravessando também a parte gráfica. O disco foi lançado nas plataformas digitais em 2018 e fisicamente em 2019. “Um lançamento nas plataformas digitais e depois um lançamento físico. Até no sentido de as pessoas conhecerem o som, as músicas e terem essa oportunidade de ouvir a qualquer momento nas plataformas e depois irem para o show já conhecendo o trabalho.”, explica Rogério.

Para estar nas plataformas digitais, os músicos ou produtores precisam fazer um cadastro em sites que são sugeridos pelas próprias plataformas. Além disso, existe uma cobrança. Rogério conta como fez para colocar “O Assassinato da Carteira Assinada” em todas as plataformas. “Escolhi um site e o processo é cadastrar, assinar um pacote que varia dependendo da quantidade de artistas que você quer colocar nas plataformas. É cobrado um valor anual para você ter direito a subir as músicas para todas as plataformas digitais. Um mesmo site põe as músicas em todas as plataformas, se você quiser. Você sobe as músicas em .mp3 e você pode editar toda a ficha técnica e adicionar arte do CD para que ele (o site) envie para as plataformas.”
Apesar de o grupo não ter mais a “carteira assinada”, a lei de incentivo cobriu os gastos com a produção do EP. Os editais que oferecem apoio financeiro para a produção de trabalhos artísticos autorais são uma alternativa interessante. Demanda trabalho e uma certa organização para concorrer corretamente e comprovar os gastos, mas ainda é uma saída para fazer o trabalho ser divulgado.
(Confira a íntegra da entrevista de Rogério clicando aqui.)

A ideia do financiamento coletivo surgiu de uma amiga, a produtora Lara Daibert. Além disso, Nathan já conhecia casos de artistas que fizeram o mesmo. “É uma espécie de pré-venda, uma co-produção, digamos assim. E é uma troca justa, então as pessoas saem felizes dos dois lados com a coisa.” Para divulgar a “vaquinha”, o músico contou com a ajuda da amiga Lara, e da namorada e cantora Clara Castro. “E eu consegui fazer o financiamento. E aí a Lara e a Clara Castro me apoiaram nisso aí. Me ajudaram a fazer os vídeos a construir uma campanha e deu tudo certo!”
Vídeo da campanha de financiamento coletivo de Nathan
Nathan conta que “a principal diferença de lançar com apoio de alguma lei de incentivo é que você tem uma estrutura um pouquinho melhor para trabalhar. Tem uma graninha para pagar o cachê dos músicos, pagar uma masterização/mixagem legais, um estúdio, arte... No caso do financiamento coletivo, você consegue saber quem te apoiou e você consegue ter o contato e manter contato com esse público. E isso é muito interessante porque tem muito trabalho em leis de incentivo também, e essa é uma das primeiras críticas, digamos, à essas leis, onde as obras meio que nascem mortas, ou peças de teatro que ficam vazias, ou livros que ficam agarrados, CDs que não viram turnês. Porque você já tendo a grana, você não tem que ralar para manter essa rede de apoiadores que você levantaria fazendo pelo financiamento coletivo.”
No espírito da coletividade, do trabalho conjunto e da amizade o álbum “Sentado no céu” já começou a ser produzido. As gravações estão prestes a começar e deve durar dois (intensos) meses de trabalho. Além disso, há todo um planejamento: “Já estou conversando sobre a arte gráfica com a Júlia Fregadoli, que é uma artista amiga minha, que vai fazer a capa do álbum. E aí depois a gente vai ter uma cobertura audiovisual com um amigo de Barbacena, que vai gerar os teasers e vai gerar um clipe também.”
Nathan lembra que “a Lara Daibert vai ser a produtora executiva do CD, o Douglas Poerner, que é baixista e amigo meu, vai ser co-produtor, a minha namorada Clara Castro, vai ajudar na produção executiva também, na divulgação e na preparação vocal. Então tem esse fator mão de obra amiga. Que também tá no espírito do coletivo, do que o financiamento coletivo propõe.”
O “Sentado no céu” está previsto para vir ao mundo ainda esse ano. Será um agrupamento de músicas do Nathan que não foram lançadas ou foram em outros projetos, mas que agora terão uma característica própria. “Eu acho que vou conseguir ter um espaço mais intimista para poder falar com uma pegada um pouco mais confessional. E também fazer o som que eu penso”, explica.
Poeticamente, o álbum vai trazer inquietações do artista. “O que a gente tem vivido como artista, como brasileiro, as coisas que a gente está passando. Acho que eu tinha uma leitura de que a gente não voltaria para esse ponto, mas a sociedade e a história estão me mostrando que a gente sempre pode retroceder. Gera uma desesperança e é um tapa do lado escuro do ser humano, e isso de alguma maneira também está no CD poeticamente."
(Confira a íntegra da entrevista de Nathan clicando aqui.)
Nathan tocando no Encontro de Compositores
Extra!
Editais, financiamentos e caminhos para produzir o trabalho autoral
Com todas as dificuldades e conquistas que foram mostradas ao longo da reportagem, podemos concluir que viver de arte no Brasil não está fácil. Mas foi mostrado que há caminhos para seguir resistindo e produzindo o trabalho artístico autoral. Além de editais públicos de leis de incentivo, existem editais que vem de outras iniciativas. Também é possível recorrer ao financiamento coletivo, ou, se for possível, investir no trabalho. Por isso, o “Fique Ligado” do Amet Culturae trouxe o produtor executivo da banda Tropeço Trio, produtor cultural, professor e poeta Rogério Arantes para dar algumas dicas.